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segunda-feira, 9 de março de 2015

QUAL A SUA COR? (texto de formação)

PERCEPÇÕES DAQUELES QUE PERGUNTAM: QUAL A SUA COR?

ARTIGO CIENTÍFICO DE AUTORIA DE:

Jaqueline GrandiI; Miriam Thais Guterres DiasII; Simone GlimmIII
IResidência Integrada em Saúde Coletiva pela Escola de Saúde Pública (ESP) – Porto Alegre (RS), Brasil. jaquegrandi@gmail.com
IIDoutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) – Porto Alegre (RS), Brasil. Professora e pesquisadora da UFRGS. miriamtgdias@gmail.com
IIIEspecialista em Ciência da Saúde pela Escola de Saúde Pública (ESP) – Porto Alegre (RS), Brasil. Tutora do Programa de Residência Integrada em Saúde da Escola de Saúde Pública (ESP) – Porto Alegre (RS), Brasil. sglimm@ig.com.br

 


RESUMO: 

Este artigo relata os resultados de pesquisa-ação pautada na Política de Saúde Integral da População Negra, realizada com o objetivo de instrumentalizar trabalhadores de um serviço de saúde de atenção básica da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. Existem poucos estudos acerca dessa Política, que ainda é um importante meio de afirmação da inclusão social e enfrentamento à discriminação. Ao colaborar com a qualificação dos processos de trabalho de equipe de serviço de saúde, a pesquisa se propôs a auxiliar na operacionalização dos trabalhos do SUS e contribuir para uma sociedade mais igualitária e equânime, onde os sujeitos tenham seus direitos garantidos.
Palavras-chave: SUS; Política de saúde da população negra; Etnia; Atenção básica em saúde; Pesquisa-ação.


ABSTRACT:

This article reports the results of an action research based on the Integral Health Policy of the Black Population conducted with the aim of providing knowledge to basic healthcare workers of the Municipal Health Secretariat in the city of Porto Alegre. There are few studies about this Policy, which is still an important means of social inclusion acknowledgement and discrimination tackling. By collaborating with the qualification of the health service teamwork processes, the research sets out to assist in the operationalization of SUS' works and contribute to a more egalitarian and fair society, where the subjects have their rights guaranteed.
Keywords: SUS; Health policy of black population; Ethnicity; Primary health care; Action research.

  
Introdução

A discussão acerca da temática etnia ganhou força nas últimas décadas no Brasil em estreita relação com ações adotadas pelo governo federal no final da década de 1990 e nos anos 2000, período marcado pelo crescimento da consciência pública sobre as desigualdades raciais. Esse movimento criou as condições necessárias para que se pense o tema etnia e sua interface com as diversas políticas públicas.
Escolher a Política de Saúde Integral da População Negra (PSIPN) como tema de pesquisa tem relação com essa conjuntura, considerando a necessidade de discutir o assunto e de contribuir para a capacitação das equipes de saúde da família, i.e., dos trabalhadores inseridos nos serviços de Atenção Básica em Saúde do Sistema Único de Saúde (SUS). O serviço de saúde desta pesquisa – doravante denominado ESF – localiza-se em uma comunidade do bairro Partenon em Porto Alegre e conta com uma população composta por diversas etnias, incluindo um número significativo de moradores pardos e negros. De acordo com o Plano Municipal 2010-2013 da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, as três regiões com a maior concentração de população negra no município de Porto Alegre são Partenon e Lomba do Pinheiro, 27,2%, seguidas da Região Leste Nordeste, 27,1%, e da Restinga, 26,4% (PORTO ALEGRE, 2010).
É característico dessa região o grande número de terreiros, que são também espaços de produção de saúde e de cuidado na tradição das religiões de matriz africana. Por essa razão, em 2010, a ESF aceitou o convite da Comunidade Terreira Ilê Asé Iyemonjá Omi Olodô, integrante da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (RENAFRO), para participar das reuniões denominadas 'Conversa Afiada'. Nessa oportunidade, foram realizadas rodas de conversa com a proposta de estabelecer uma parceria para "[...] melhorar a qualidade de vida dos usuários do território adscrito, garantindo a efetivação dos princípios de equidade, acessibilidade e respeito à diversidade e fortalecimento do SUS" (KERKHOFF; FOLA, 2012, p.118). Essa ação resultou na aproximação entre a ESF e o terreiro, no intuito de reafirmar o respeito às crenças e costumes. Percebe-se, assim, uma oportunidade para que se discuta o tema etnia, considerado como proposição da pesquisa.
Outra premissa considerada é a necessidade de os serviços de saúde conhecerem as reais demandas e especificidades da população atendida para que tenham condições de oferecer atendimento integral que contemple uma noção de saúde ampliada. Esta pesquisa teve como objetivos: conhecer e explicitar os elementos da PSIPN a fim de instrumentalizar os trabalhadores da unidade e contribuir para uma futura implementação dessa Política nesse serviço de saúde; conhecer suas diretrizes e seus objetivos; mapear junto à equipe da unidade de saúde seus principais aspectos para conhecer suas potencialidades e possíveis lacunas; valorizar e congregar os conhecimentos dos membros dos movimentos sociais de defesa de direitos da população negra de Porto Alegre; e considerar os conhecimentos acerca da PSIPN advindos dos gestores de saúde, identificando as principais dificuldades manifestadas pelas equipes de saúde durante o processo de realização da pesquisa.
A seguir, apresentam-se e discutem-se os resultados alcançados pela pesquisa. Inicia-se por um breve resgate do processo de integração dos negros na sociedade brasileira e segue-se apresentando a proposta para a equipe de um serviço de saúde de atenção básica e construindo o projeto de pesquisa. Relata-se a forma como ocorreu a implementação da proposta na ESF – por meio de etapas vivenciadas no coletivo – e finaliza-se com a análise das reflexões produzidas pelos trabalhadores da ESF durante a pesquisa, além de algumas considerações. Importa salientar que se trata de um estudo inovador em virtude da perspectiva de construção coletiva, viabilizado por pesquisa-ação envolvendo trabalhadores do SUS que refletiram e participaram ativamente de todo o processo, em consonância com o método escolhido.
 
A população negra na sociedade brasileira

Para iniciar a discussão aqui proposta, cabe introduzir breve resgate histórico acerca da integração da população negra na sociedade brasileira.
A integração dos negros na sociedade de classes, título dado a um dos livros de Florestan Fernandes (2000), é tema de estudos que mostram as dificuldades que essa população enfrentou ao buscar inserção social. Essa integração teve como marco principal a abolição da escravatura, fato que ocorreu como ação isolada, posto que não foram criadas as condições para uma real inserção social. Essa falta de condições, ou seja, o não acesso à moradia, saúde, educação, a emprego, gerou forte repercussão negativa. Ao falar do período de industrialização do País do início do século XX e tomando por base a cidade de São Paulo, Fernandes ressalta a exclusão social sofrida por negros e mulatos que, "viveram dentro da cidade, mas não progrediram com ela e através dela" e, nesse contexto, "agravou-se, em lugar de corrigir-se, o estado de anomalia social transplantado do cativeiro" (FERNANDES, 2008, p.119).
Por volta de 1889, já era evidente a incapacidade do Estado em promover ações de ampliação de oportunidades para a população negra, no momento em que estava em mudança o status jurídico dessa população, considerando o fim da economia escravocrata. A naturalização das desigualdades teve apoio na consolidação da teoria racista – entre 1880 e 1920 –, que reafirmava a existência de uma hierarquia racial e o reconhecimento dos problemas resultantes de uma sociedade multirracial (JACCOUD, 2008). Essa ideologia sustentou-se mesmo com a mudança de contexto social e jurídico da população negra, somada à "ideia de que a miscigenação permitiria alcançar a predominância da raça branca" (JACCOUD, 2008, p.49).
Assim, surge no Brasil a 'tese do branqueamento' como projeto nacional, que se sustentava em uma 'preferência' à mestiçagem e aos 'povos mestiços', reconhecendo relativa aceitação da sociedade daquela época do grupo identificado com mulatos, pois teriam a possibilidade de continuar em uma trajetória em direção ao ideal branco. Amparada nessa 'tese de branqueamento', vigorou a ideia de que o progresso do País estaria atrelado não somente ao desenvolvimento econômico como também a um aprimoramento racial do povo. Corrobora para essa noção a constituição do cientificismo como verdade absoluta, posto que, ainda no século XVIII, alguns autores desenvolviam teses cientificas que afirmavam a inferioridade racial do negro (RODRIGUES, 2012). Esse contexto influenciou a tomada de decisões políticas que contribuíram para a restrição de possibilidades de integração da população negra na sociedade brasileira, aprofundando as desigualdades presentes até os dias atuais.
A exclusão social dessa etnia teria tido sua significação reduzida com a migração das outras etnias que também buscavam integração na sociedade capitalista. Assim, surge uma nova configuração referente ao mercado de trabalho, onde o processo de industrialização cria a necessidade de trabalhadores com capacidade de venda de sua força de trabalho; os negros e mulatos não estavam nesta categoria, sendo considerados inaptos para a aprendizagem técnica ou com capacidade insuficiente para o trabalho na indústria, participando em proporções ínfimas (FERNANDES, 2008).
Destarte, a ausência de oportunidades de inserção resultou na permanência da população negra em condições sociais desfavoráveis frente a outros segmentos populacionais. Nas décadas seguintes ao início do século XX, não houve proposta do Estado para resolver ou minimizar tal problemática, estando os reflexos desse período histórico ainda presentes na sociedade contemporânea. Dados da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), que compõem a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (BRASIL, 2007), trazem elementos que comprovam a intensidade da desigualdade no Brasil. No campo da educação, o índice brasileiro de analfabetismo geral era de 12,4%, em 2001: entre os negros, a proporção era 18,2% e, entre os brancos, 7,7% (IPEA 2002 apud BRASIL, 2007, p.25). Quanto ao aspecto da pobreza, mais de 32 milhões de negros com renda de até ½ salário mínimo viviam, em sua maioria, em lugares com características indesejáveis de habitação e eram potencialmente demandantes de serviços de assistência social (IBGE, 2000; IPEA 2002 apud BRASIL, 2007, p.26).
Segundo informações que integram o caderno Comunicados do IPEA (n.91, 2011), 97 milhões de pessoas se declararam negras – pretas ou pardas – no Censo Demográfico de 2010, e 91 milhões, brancas. Esse documento revela as características demográficas da população negra do Brasil e traça um paralelo entre as condições de vida das populações branca e negra, informando que a população negra é predominante, mais jovem e mais pobre, tem mais filhos e está mais exposta à mortalidade por causas externas, especialmente homicídios (IPEA, 2011).
Esses indicadores demonstram uma relação importante entre as condições de vida e a necessidade de políticas públicas sociais que sejam capazes de contribuir de forma significativa para a superação de lacunas resultantes do não acesso aos serviços e da negação de direitos humanos. Portanto, justifica-se a necessidade de qualificar os trabalhadores do SUS para a implementação de uma política de saúde específica que atenda às necessidades de uma população com um histórico particular e diferenciado das demais etnias no Brasil.
 
Metodologia

A pesquisa realizada propôs um estudo participante calcado na realização de encontros sistemáticos em datas acertadas com as duas equipes de trabalho de uma ESF: duas enfermeiras, quatro técnicas em enfermagem, dois médicos, uma dentista, uma técnica em saúde bucal e seis residentes da Escola Pública de Saúde do RS de diferentes profissões. O intuito era o de informar e instigar a reflexão e troca de conhecimento, em parceria com movimentos sociais de defesa dos direitos da população negra de Porto Alegre e representantes da Secretaria da Saúde no âmbito da implementação da política social pública em questão. A metodologia adotada se norteia no método pesquisa-ação, que, segundo Michel Thiollent ocorre [...] "quando houver realmente uma ação por parte das pessoas ou grupos implicados nos problemas em observação" (THIOLLENT, 2002, p.15).
O método escolhido implicou um movimento que se inicia pela prática, continua com a compreensão e em seguida passa para a explicação, retornando, então, à prática. A prática referida é a prática social do grupo em primeiro lugar e, em segundo, a prática do pesquisador. Elas se misturam, resultando em conhecimento para o grupo e também para o pesquisador (HAGHETTE, 1992).
Na fase exploratória da pesquisa, que consistiu em 'descobrir o campo de pesquisa, os interessados e suas expectativas em estabelecer um primeiro levantamento da situação, dos problemas prioritários e de eventuais ações' (THIOLLENT, 1988), realizou-se uma conversa com a equipe participante a fim de construir uma abordagem coletiva sobre o tema. Para tanto, a pesquisadora apresentou uma proposta de pesquisa em reunião de equipe e a conversa inicial resultou na aprovação da metodologia sugerida, do número de encontros em que se abordaria o tema e da aceitação dos objetivos geral e específicos considerados pertinentes pelo grupo.
Ainda na fase exploratória, levaram-se em conta as características do território, conforme dito anteriormente, especialmente com relação às características étnicas da população, com o objetivo de dar continuidade às ações já realizadas, como as rodas de conversa propostas pela RENAFRO. Assim, pensando em se atingir os objetivos traçados, aprovou-se a proposta de participação das duas equipes da ESF neste estudo. A pesquisa baseou-se no Plano Municipal de Saúde 2010-2013 de Porto Alegre, na Constituição Federal de 1988 e nas próprias Políticas Nacional e Estadual de Saúde Integral da População Negra.
Respeitando o método escolhido, que prevê um trabalho integrado entre pesquisador e participantes, seguiu-se o cronograma definido conjuntamente para a realização de quatro encontros de uma hora e meia na própria ESF. Dois desses encontros foram restritos à equipe e à pesquisadora; um com a participação de gestores da política de saúde e outro com a presença de representantes dos movimentos sociais de defesa dos direitos da população negra.
O primeiro encontro contou com a presença do representante atual da gestão federal da política de saúde, Sr. Stênio Dias Pinto, Chefe do Serviço de Auditoria do Rio Grande do Sul, SEAUD-RS/DENASUS. As ricas contribuições advindas dessa participação refletem a relevância do cargo exercido. Porém, salienta-se, especialmente, o fato de tratar-se também de um militante de histórica importância no movimento de defesa dos direitos da população negra, com expressivos conhecimentos sobre o tema. Os assuntos por ele abordados envolveram questões fundamentais para a discussão do tema etnia, como a construção social do racismo no Brasil, aspectos históricos, práticas realizadas pelos profissionais de saúde que podem contribuir para a reprodução e manutenção do racismo institucional; princípios básicos da Constituição Federal e algumas sugestões de ações para a equipe.
Abordou-se, ainda, o processo de aprovação da Constituição Federal, o papel das políticas públicas para o enfrentamento da discriminação racial, resgate histórico de lutas em que não se reconheceu o protagonismo do povo negro – Revolução Farroupilha, Guerra do Paraguai, Canudos, dentre outras –, algumas formas de disseminação de valores e ideologias que podem ir ao encontro da reprodução do racismo. Esse primeiro encontro contou também com a participação de uma representante da gestão municipal Sra. Glaucia Maria Dias Fontoura, gerência distrital de saúde.
No segundo encontro, com a participação da pesquisadora e da equipe, abordaram-se os seguintes tópicos: retomada dos objetivos do projeto de pesquisa, legislação federal, Plano Municipal de Saúde 2010-2013, Política de Atenção Integral à População Negra, inserção desta Política no SUS e seus objetivos. Dos objetivos traçados no projeto, pode-se considerar que dois foram alcançados nessa ocasião: conhecer as diretrizes e os objetivos da PSIPN e mapear, junto às equipes da ESF, seus principais aspectos a fim de reconhecer suas potencialidades e possíveis lacunas. Considerou-se, na explanação, que cada ente federado tem seu próprio tempo de gestão e execução da Política; por essa razão, citaram-se ações priorizadas nos níveis federal, estadual e municipal.
O terceiro encontro foi planejado, porém não foi realizado. Estava programada a participação de representantes do movimento de defesa dos direitos da população negra, para o que foram contatados dois grupos. Contudo, os vários esforços envidados no sentido de contar com sua presença na atividade não obtiveram sucesso.
No último, que, de fato, foi o terceiro encontro, realizou-se uma conversa acerca das informações socializadas durante os encontros anteriores a fim de conhecer as possibilidades e limites identificados pela equipe com relação ao tema abordado, relacionando os processos de trabalho atuais e possíveis mudanças que contemplem os aspectos abordados durante os encontros. Também, apresentou-se material didático sobre os aspectos que definem o modo de formular, avaliar e monitorar uma política pública, tomando por base a PSIPN.
 
Resultados e discussão

Durante a realização dos encontros previstos na pesquisa, a PSIPN foi conhecida, debatida e, em alguma medida, pode-se dizer que incorporada pela equipe ao final desta pesquisa. Para confirmar esses resultados, serão reproduzidas as falas dos trabalhadores, identificados por siglas, preservando, assim, seus nomes, conforme estabelecido no Termo de Consentimento Livre e esclarecido, do projeto aprovado pelo Comitê de Ética da Escola de Saúde Pública do RS e do Comitê de Ética da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre - RS (SMS/PMPA). As siglas usadas são 'TS-trabalhador da saúde', seguidas de números, tendo o resgate das falas ocorrido a partir da gravação dos encontros, conforme previa o estudo.
Com a exposição dos fatos históricos e apontamentos feitos pelo gestor convidado, surgiram importantes reflexões da equipe, que espontaneamente trouxe para a discussão o cotidiano no serviço, como, por exemplo, o fato de estar ocorrendo uma seleção municipal para compor as equipes mínimas na gerência distrital onde se localiza a ESF do estudo. Alguns trabalhadores da equipe inscreveram-se nas cotas, cerca de 30% da equipe, fato que gerou posicionamentos distintos. Uma das participantes verbalizou "[...] nós negros nos inscrevemos nas cotas e sinto que sofremos pressão aqui" (TS1), no que outra trabalhadora completou:
Eu li um pouco e eu pensei assim: é como se fosse uma dívida com o negro, só que a gente não tem noção do que o negro passou e o que reflete hoje na população então a gente pensa assim: não, mas tem branco que sofre a mesma coisa. Mas é uma dívida e é a consciência do que ele (o negro) passou e o que hoje ele ainda sofre com isso. Então o que se faz: entra com as cotas, que é uma reparação daquilo, daquela injustiça que foi cometida. (TS2).
A fala dessa trabalhadora traz argumentos fortes, que consideram a historicidade das práticas de exclusão, as quais devem ser reparadas por ações do Estado via políticas afirmativas. Conforme Guimarães:
A luta contra o preconceito de cor transforma-se, nos dias atuais, em luta por ações afirmativas que garantam maior igualdade de oportunidade de vida para a população negra (GUIMARÃES, 2008, p.113).
Contudo, houve falas discordantes, como, por exemplo: – "E os brancos, ficam onde? (TS3); não é justo, se uma mãe tem um filho negro e outro branco. Só um deles vai ter direito à cota?" (TS3) e outro trabalhador verbalizou: – "Mas temos que atender todos do mesmo jeito, igual. A PNH [Política Nacional de Humanização] já fala de igualdade. Diferenciar pela cor da pele não aumenta o preconceito?" (TS4). Essas falas apresentam a ideia que, ao se considerar especificidades de determinada população, no caso a população negra, poder-se-ia prejudicar outras parcelas da população (os brancos?). Sobre esta concepção Grin defende
[...] a opinião pública reconhece o racismo, mas acredita na miscigenação como evidência do não racismo; [...]; vitimiza o pobre, mas não lhe confere cor; reconhece a perversidade da escravidão, mas não se sente individualmente responsável por qualquer reparação histórica; apoia ações afirmativas, mas repudia o sistema de cotas raciais (GRIN, 2010, p.89).
Nesse ponto, surge uma questão central relativa ao fato de saber-se que a estratificação social no Brasil tem relação direta com o racismo em razão dos fatos históricos já apontados. Porém, o que determina exclusão e preconceito, muitas vezes, é a cor da pele, o que não está necessariamente vinculado às condições econômicas desfavoráveis, posto que o critério etnia serve como elemento determinante nos processos de exclusão e estratificação social no Brasil (PAIXÃO, 2003). Questões como os resquícios de um processo de abolição da escravatura, que negou os mínimos direitos econômicos e sociais aos descendentes dos antigos escravos e manteve o regime de propriedade concentrado nas mãos de uma minoria, contribuem para essa realidade excludente (PAIXÃO, 2003). Sendo assim, concorda-se com Grin (2010) quando este afirma que a exclusão social tem no racismo o seu componente mais perverso, pela desigualdade social nele presente.
Em determinados momentos, como na segunda reunião realizada, surgiu novamente a questão da 'diferenciação' pela cor como possível causadora de prejuízo à população:
A Política (de saúde) da População Negra tem que se inserir na de Humanização (...). Não tem só negro na população periférica. É a carência de suprir a saúde dos mais necessitados" (TS4).
Não obstante, outra trabalhadora afirmou ter dificuldades para identificar especificidades étnicas, que acredita não se aplicarem aos ciclos de vida, posto que, em sua opinião, são evidentes as particularidades dos ciclos de vida, pois "a cor é natural" e não deve ser diferenciada:
É mais natural a cor do que um idoso, por exemplo. Vou atender um idoso branco ou um preto da mesma forma. Agora, um idoso tem especificidade diferente de um adolescente" (TS5).
Em outra fala, a trabalhadora discordou: – "As políticas se agregam [PNH e PSIPN]. Mas se tu vai pensar só pela ótica da humanização tu esqueces da especificidade" (TS6). A mesma trabalhadora completou: – "Tem que ter um olhar focado na cor, em função de ocupar os piores indicadores sociais, e a gente tá vendo, há diferenças em agravos, doenças" (TS6). Ela referia-se aos indicadores que constam do Plano Municipal de Saúde de Porto Alegre 2010-2013, apresentado à equipe durante a pesquisa e que revelavam, por exemplo, que, em 2009, os dados de notificação de casos de AIDS apresentavam risco de 1,0/100.000 para a população branca e de 2,5 para população negra, com incidência de 70,6/100.000 para brancos e 175,8 para negros; em relação às gestantes com infecção para o HIV, o risco para as mulheres negras é 2,5 vezes o das mulheres brancas; os homens negros e jovens têm o risco em dobro para mortalidade por homicídio, seguindo a média nacional de outros indicadores.
Na última reunião com a equipe, debateu-se sobre como uma política poderia ser implantada, ou seja, quais elementos e ações seriam necessários para implementar a Política de Atenção Integral à Saúde da População Negra, para o qual surgiram diversas sugestões. Uma delas foi a de inserir o quesito cor nas fichas dos programas – Hiperdia e Pra nenê, inicialmente – a fim de melhor se orientar e constituir um banco de dados mais completo para pesquisas futuras.
A equipe manifestou também a necessidade de debater o assunto etnia com a comunidade, levando a Política ao conhecimento da população, o que demonstrou entendimento da relevância do tema em virtude das especificidades do território. Sugeriu-se, ainda, falar sobre a coleta do quesito raça/cor para a população, usando as reuniões do Conselho Local de Saúde. Todavia, salientaram-se as dificuldades atuais de articulação com a comunidade, que passa por um momento de enfraquecimento da participação no controle social na política de saúde, com poucas lideranças atuantes e participação muito pequena da comunidade: – "Seria bom contar com o controle social, com o conselho local de saúde, né? Pra gente chamar a comunidade, fazer uma reunião, mas tá difícil" (TS3).
A necessidade de debater coletivamente o tema etnia envolvendo o maior número de pessoas possível ampara-se na ideia de que esse conceito envolve não somente a cor da pele como também cultura, i.e., aspectos como religião, língua, costumes e modos de vida. Autores, como Marilena Chauí (1986), defendem que cultura não é algo estanque, o que torna indispensáveis os momentos de troca de saberes e construção coletiva já que
Ora, seres e objetos culturais nunca são dados, são postos por práticas sociais e históricas determinadas, por formas da sociabilidade, da relação intersubjetiva, grupal, de classe, da relação com o visível e o invisível, com o tempo e o espaço, com o possível e o impossível, com o necessário e o contingente. Para que algo seja isto ou aquilo é preciso que seja assim posto ou constituído pelas práticas sociais (CHAUÍ, 1986, p.122).
Outro resultado foram as manifestações dos trabalhadores acerca da coleta do quesito raça/cor segundo o que estabelece o IBGE, embora incentivar a autodeclaração corretamente é responsabilidade do trabalhador da saúde, que deve procurar esclarecer as dúvidas. Sobre as dificuldades que surgem nesse momento foi dito: – "Mas vamos falar como? E se as pessoas se ofenderem? Sei lá, podem achar ruim perguntar assim, a cor" (TS7). E outro verbalizou: – "Mas a gente tem que explicar, dizer os quesitos: citar que moreno não entra e tal..." (TS7), referindo-se à abordagem no momento de coletar a informação. Continuando o debate, alguns trabalhadores sugeriram a atualização de informações dos prontuários, onde não consta o quesito raça/cor: – "As fichas [das famílias] antigas não têm informação sobre etnia. A gente poderia atualizar os prontuários, começando sei lá, pelo bloco um ou o treze" (TS4). Outro trabalhador concorda: – "Pode ser. Vamos fazer isso com todos de um bloco que forem atendidos, depois a gente vê como foi" (TS6) – Importante esclarecer que o território da ESF da qual trata a pesquisa tem seu território dividido em treze blocos e que a escolha da equipe pelo bloco um foi aleatória.
Estabeleceu-se, então, que a coleta do quesito raça/cor seria realizada com as pessoas atendidas do bloco um, com as quais se falaria a respeito da questão étnica, explicando os quesitos do IBGE e suas justificativas para coletar a informação. Surgiu, assim, um projeto piloto de implementação da Política a partir da atualização dos dados dos prontuários, das conversas individuais durante as consultas e nas salas de espera, e combinou-se que a avaliação desse processo realizar-se-ia em dois meses, em reunião de equipe, dentro do tempo reservado para educação permanente.
A avaliação do projeto piloto foi retomada em outros momentos, durante as reuniões da equipe. Relatou-se que houve maior incidência de conversas a respeito do tema no momento do acolhimento. Durante as consultas, conversou-se, por vezes, com a população, mas a equipe considerou pouco o tempo que se dispunha na consulta para que se pudesse refletir sobre o tema etnia e abordar demandas de saúde. Atualmente, os integrantes da equipe têm conversado com a população a respeito do tema durante os atendimentos, realizando-se a coleta do dado a partir da autodeclaração. Ainda não é uma prática frequente, mas o tema etnia tem sido abordado, o que representa um avanço.
 
Comentários

A discussão acerca da temática etnia ganhou força nas últimas décadas no Brasil, guardando estreita relação com ações adotadas pelo governo federal nos anos 2000. Uma importante conquista foi a criação, em 2003, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, cuja finalidade é atuar na formulação, coordenação e articulação de políticas e diretrizes de diferentes ministérios, dentre os quais o da saúde, e outros órgãos do governo brasileiro para a promoção da igualdade racial.
Quanto à pesquisa realizada, pondera-se que os resultados mais importantes foram coletados nas discussões mantidas com a equipe e nas possibilidades de mudança de concepção, além das conversas realizadas com a população, ainda que de forma pontual.
Outro resultado importante foi a demonstração de interesse sobre o tema por parte de alguns trabalhadores, que se sentiram motivados a dar continuidade às discussões com a equipe. Esses trabalhadores têm participado de eventos que tratam do assunto etnia e propõem-se a dar continuidade a ações tais como conversas com os usuários que aguardam pelo atendimento – agendado ou não – do dia, a fim de prestar informações e esclarecer dúvidas.
A pesquisa cumpriu seus objetivos, criando uma abertura para o diálogo e para o conhecimento da PSIPN, mesmo que ainda esbarre em limitadores. Iniciar o processo de implementação de ações que contemplem a Política por meio da discussão com os trabalhadores dos serviços é uma estratégia potente para que se pactuem as mudanças necessárias à qualificação do atendimento. A partir da compreensão da equipe sobre a importância do recorte racial, possibilitou-se criar as condições para identificar as reais necessidades da população segundo suas especificidades. Assim, essas informações poderão ser empregadas como critério de planejamento e definição de prioridades. Essa é também uma forma de combate ao racismo institucional, e marca da PSIPN – política direcionada à sociedade em geral –, posto que qualquer sujeito pode praticar o racismo, independentemente de sua etnia e que
Qualquer discriminação é imoral e lutar contra ela é um dever por mais que se reconheça a força dos condicionamentos a enfrentar. A boniteza de ser gente se acha, entre outras coisas, nessa possibilidade e nesse dever de brigar (FREIRE, 1996, p.61).
Logo, a luta contra a discriminação racial é dever dos cidadãos, e a efetivação da Política de Atenção Integral à saúde da População Negra é uma tarefa a ser executada por todos os trabalhadores inseridos no SUS, de forma a que se contribua para a supressão do preconceito e do racismo institucional nos serviços de saúde.
 
Referências

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SERVIÇO:

Saúde em Debate

versão impressa ISSN 0103-1104

Saúde debate vol.37 no.99 Rio de Janeiro out./dez. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-11042013000400006

COMO CITAR ESSE ARTIGO (Formato Documento Eletrônico (ABNT):

GRANDI, Jaqueline; DIAS, Miriam Thais Guterres; GLIMM, Simone. Percepções daqueles que perguntam: qual a sua cor?. Saúde debate,  Rio de Janeiro ,  v. 37, n. 99, dez.  2013 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-11042013000400006&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  09  mar.  2015.  http://dx.doi.org/10.1590/S0103-11042013000400006.

sábado, 13 de setembro de 2014

COMPARTILHANDO... Entrevista com Mia Couto, literata moçambicano

[Entrevista originalmente publicada no jornal Zero Hora, por Letícia Duarte, em 07/09/14]

O senhor vem de um dos 10 países mais pobres do mundo, e essa temática dos desvalidos é marcante em sua obra. Ao mesmo tempo, a esperança também é recorrente. Mesmo em Terra Sonâmbula, o seu livro que retrata o contexto da guerra civil em Moçambique, isso aparece. Na obra, o senhor escreve que o que faz andar a estrada é o sonho. Como cultivar a esperança em meio à aspereza da realidade? 

De uma forma coletiva temos dificuldade em encontrar um caminho. No Brasil, no Moçambique, no mundo, nós nos sentimos um pouco perdidos, porque as forças que hoje comandam o mundo são pouco visíveis, não têm um rosto concreto. Como operar a mudança sem entender é muito complicado. Mas a resposta começa a partir de cada um. Não podemos abdicar desse outro modo de viver em que os outros são importantes, e é preciso perceber que esse sentido coletivo, essa negação do mundo sem lugar, de um mundo sem história, tem de ser feita em cada um de nós. Não só contar e receber histórias, mas vivermos uma história. E essa história tem que ser produzida por nós, não pode ser consumida. Não pode ser algo como a gente vai ao cinema, lê um livro, e assimilamos as histórias dos outros, que os outros fazem para nós. Temos de ser produtores de histórias. Assim conservamos o papel de sujeitos.

O senhor critica a visão arrogante do Ocidente, que imagina ter a receita para salvar o continente africano, sem considerar toda a complexidade cultural. Qual o primeiro passo para que os ocidentais possam ter uma visão mais realista do continente africano?

É preciso dizer que essa arrogância não é só da cultura ocidental. Todas as culturas que se querem hegemônicas têm a mesma arrogância. Mas, uma vez que essa cultura ocidental se tornou tão
hegemônica, não se pode pedir a essa outra cultura que tenha atenção. É preciso impor a partir de dentro. São os africanos que têm que contar a sua história, e ter a sua própria voz, como a voz que importa e que é respeitada. Em lugar de pedir aos outros, a África tem que fazer isso a partir de dentro. Isso já começou. Não se pode esquecer que um dos únicos políticos do mundo que devolveu esperança ao mundo e resgatou a nobreza de fazer política foi um africano, Nelson Mandela. É um grande orgulho para a África ter esse caso singular no mundo, de alguém que fez política para servir, no sentido de sua abdicação pessoal.

O racismo é uma realidade no Brasil, e tem aparecido especialmente nos estádios de futebol, com casos de torcedores jogando banana para um árbitro negro e gritando "macaco" para jogadores negros. Já quando eu morava em Moçambique, tinha a sensação de que o branco era visto como alguém rico e mais estudado, que deveria dar dinheiro aos africanos. Como fugir dessa armadilha da "raça"?

Há várias maneiras. Um componente do racismo é que ele olha a raça para não ver a pessoa. É preciso fazer valer as histórias de cada um, acima da identidade racial. Não é a raça que produz o racismo, é o racismo que produz a raça. E às vezes a resposta que damos ao preconceito racial é fundada na raça, como, por exemplo, as políticas sociais afirmativas, de cotas. Não sou contra, mas além disso tem que haver a afirmação da individualidade. Porque, no fundo, o grande crime do racismo é que anula, em nome da raça, o indivíduo.

O senhor também critica o politicamente correto, que nos coloca a reboque de preocupações cosméticas, como se as palavras por si só fossem mudar a realidade. Na sua visão esse é um recurso hipócrita?

Sem dúvida, sou muito contra isso. Em alguns casos, obviamente a palavra também está mal. Mas, no geral, essa ideia do politicamente correto, de pensar que a palavra vai alterar o conceito e o preconceito é uma coisa importada, que vem de um mundo anglo-saxônico, com uma postura religiosa, fundada no protestantismo. Lembro a primeira vez que eu visitei os Estados Unidos, e um colega meu, escritor como eu, de raça negra, fez uma palestra. E ele fez uma série de gafes, sem saber, porque usou termos que não eram "corretos" ao designar sua própria raça. E a seguir nos entregaram uma espécie de pequeno dicionário, com uma pequena lista, com o que se devia dizer. Eu recordo bem que já não se poderia se dizer "cego". Dizia-se "visually challenged", o que é uma coisa extraordinária. Eu acho que nunca conseguiria dizer, mesmo sendo escritor (risos).

O senhor se define como uma criatura de fronteira — que é biólogo e escritor, tem origem europeia mas é africano, trabalha com a ciência e a arte. Num mundo tão intolerante como o nosso, essa visitação a diferentes realidades é cada vez mais rara. Por que nossa sociedade teme tanto ultrapassar suas fronteiras?

Essas sociedades são fundadas no medo. Temos hoje uma forma de governo que é administrar uma espécie de caos produzido pelo próprio sistema. Isso envolve sempre um aparato policial, policiamento das ideias, de anulação da criatividade, tudo feito em nome do medo, de uma ameaça que não sabemos bem o que é. Então é preciso essa aceitação de que esse outro está dentro de nós. Aqui no Brasil é uma coisa muito notória: 90% dos brasileiros nem sabem bem como se combinaram histórias, continentes, raças, dentro de si mesmos. E essa mestiçagem é o lugar certo: a aceitação profunda de que o outro existe dentro de nós. Em vez de a África ser procurada em África, provavelmente os brasileiros encontram a África fazendo essa viagem interior, em sua própria história.

Em seus textos, o senhor reafirma que a língua portuguesa é um espaço de resistência. E que na periferia a palavra precisa lutar para não ser silêncio. Em que medida escrever é uma forma de militância?

Escrever em qualquer língua é sempre uma forma de militância. Escrever no sentido de fazer literatura, porque hoje há muito livro que se edita que não parece que seja exatamente literatura. E a militância existe em toda língua porque o que o escritor faz é dizer assim: eu produzo pensamento, eu produzo arte, num universo em que não se espera que as pessoas produzam desta maneira, como afirmação de sua própria interioridade. Espera-se que se consuma. E fazer isso em português, num mundo em que a língua inglesa é a língua global, é uma afirmação de diversidade quase subversiva.

Seu próximo romance será sobre um imperador que resistiu à colônia... tem previsão de publicação? 

Está em andamento. Mas sempre que me proponho a escrever um romance, sou atropelado pela poesia (risos). Em vez de escrever esse livro, começam-me a nascer versos. É um momento que eu quase odeio poesia... não queria. E já percebi que meu processo de escrita é assim. É como se a poesia me ajudasse a entender o que eu quero, o que é importante. No fundo, acho que sou um poeta que está tendo a ousadia de escrever em prosa. Mesmo quando escrevo em prosa estou fazendo poesia. E essa é a briga minha em caminhar pelo que seria pelo romance histórico, por via de uma aproximação poética.

Esse livro de poesias está nascendo?

Já acabou, está pronto. Chama-se Vagas e Lumes. Será o quarto livro de poesias que eu tenho, e no Brasil devem juntar todos em um volume único. Porque é uma coisa trágica que está a acontecer, já não se publica poesia. Só publica poesia quem tem um certo nome e portanto assegura-se quem venda. Mas um jovem poeta hoje está praticamente liquidado. É uma coisa terrível. Um grave sintoma. Estamos abdicando de uma forma de nós. Porque a poesia não é um gênero literário, a poesia é um saber, um olhar. O Vagas e Lumes deve sair em outubro em Moçambique e em Portugal, e no Brasil ainda não tem sei.  

E o romance, tem previsão de publicação?

Até o início do próximo ano devo acabar. A dificuldade ali é os personagens me aceitarem, gostarem de mim. Porque o segredo é esse, criar uma intimidade com aquela gente, que de partida parece que nasceu de mim, mas eles terem vida própria, autonomia, para me chamarem. Estou esperando que eles me chamem.

Seu processo de escrita é sempre assim, de se sentir convocado pelas histórias?

Só houve um livro em que o processo foi outro, e doloroso. Normalmente eu não sofro, não sou masoquista (risos). Mas Terra Sonâmbula foi um processo diferente, sofrido, porque eu escrevi durante a guerra. E a ideia que eu tinha era que a guerra não terminaria nunca. Pensava que só depois de acabar a guerra faria um livro sobre a guerra, mas o livro começou-me a nascer. E era doloroso mesmo, porque à noite era visitado não por personagens, mas por fantasmas quase, gente que morreu, amigos meus que desapareceram na guerra... e eu ia para o computador e, depois de duas horas, estava cansado, queria voltar à cama. Deitava-me cinco minutos e estava a ser convocado outra vez. Foi um processo doloroso mesmo, não estou romantizando. Percebi que não estava só a escrever, estava lutando contra aquela asfixia que a guerra nos trazia.

E isso vinha como sonhos?

Eram como sonhos. A partir dessas pessoas que eu conheci, dessas vozes. Eu era jornalista àquela altura. Lembro-me que um dos meus colegas, que era chefe da redação do jornal e era uma pessoa mais doce, cheia de esperança, anunciou que ia fazer uma viagem para um ritual de família. Eu insisti tanto que ele não fosse, porque a guerra estava ali na estrada... e ele foi morto. Ele, a mulher e os filhos foram queimados dentro do carro. Então essa relação com essa memória, com essa perda, era algo que me pedia uma história. Eu não sabia lidar com aquela ausência.

Isso me lembra uma frase do livro Um Rio chamado Tempo, uma Casa chamada Terra: "Morto amado nunca para de morrer"...

É. Mas ao mesmo tempo a África dá-te um conforto, que te ajuda a resolver esse luto. Que é a uma convicção de que os mortos estão aqui, estão vivos, e não só estão vivos como comandam a nossa vida também. Acho que eu interiorizei mesmo isso. Meu pai morreu no ano passado, e foi a primeira morte de alguém do meu sangue, e eu fiz esse teste em mim. Nunca pensei que pudesse enfrentar essa dor como alguma coisa que eu atravessei sem a necessidade de ter que ele findou... ele está dentro de mim, eu sou ele. Não é só um pequeno conforto, uma pequena mentira, acho que é uma verdade profunda.

A sua escrita cheia de invenções, que mescla registros da fala popular de Moçambique, onde se falam 25 línguas, e também tem influência de escritores brasileiros, é muito celebrada. Como o senhor vê essa questão da linguagem?

Isso tem de ser visto do ponto de vista de que Moçambique percebia que o português de Portugal servia, mas não bastava. Nós precisávamos introduzir nesse português uma marca de mudança, de identidade própria. É muito complicado fazer na língua do outro uma afirmação de nós próprios. O Brasil ajudou muito, não só do ponto de vista literário. Antes de nós, vocês já tinham percorrido um processo, de autonomia, de fazer uma espécie de identidade brasileira dentro da língua portuguesa. Quando africanos de língua portuguesa tomaram contato com a literatura brasileira foi uma catarse, principalmente Jorge Amado. Foi uma espécie de caução literária. Meus grandes mestres estão aqui.

Seria uma espécie de retroalimentação? 

O Brasil é um grande produtor e exportador de língua portuguesa. E não só por causa da dimensão da população, mas também das novelas. Infelizmente, o livro não chega tanto, mas as novelas produzem grande influência. Eu recordo que fui uma vez a Tete (província na região central de Moçambique) — e a (companhia)Vale do Rio Doce tem uma grande presença por lá. Eu entrei no hotel e os empregados moçambicanos cumprimentavam-me com Namastê, Namastê! E eu não percebia o era aquilo. Vim a saber mais tarde que havia uma novela, Caminho das Índias, e aquilo alterou a maneira das pessoas se cumprimentarem, entre os próprios moçambicanos.

Em uma de suas palestras ao Fronteiras do Pensamento o senhor disse que "Não podemos confundir informação nova com informação recente. Muitas vezes as ideias que temos nos impedem de ter ideias novas. E nos tornamos aquilo que já fomos. Como evitar que isso aconteça, de virar refém das nossas ideias?

Acho que é pelo gosto, pela sedução que o pensamento tem. Eu fico espantado como amigos meus às vezes dizem que não querem ver um filme porque é um filme para pensar, como se pensar não fosse uma coisa prazerosa. Pensar é um grande prazer. E esse gosto está dentro de nós. O escritor também não pode ser algo que junto das novas gerações se faz por imposição. Aquela pergunta clássica: você já leu James Joyce ou Thomas Mann? E o fulano fica envergonhadíssimo, porque não leu. Não pode ser por aí. Tem que ser uma ideia de cultura que se faz pelo usufruto, pelo prazer, que o contato com esse mundo nos faz sonhar.

Entrando na sua outra área de trabalho, a biologia: o senhor afirma que muita gente tem uma visão distorcida do ambiente, como se as pessoas não fizessem parte dele. Qual dever ser, na sua avaliação, o foco da discussão ambiental?

É preciso não cair nessa armadilha de pensar que o meio ambiente é algo que se possa isolar. O meio ambiente é tudo. Sou muito favorável a esta concessão africana, por exemplo, em Moçambique, nem palavra tem para designar separadamente o meio ambiente. Não existe uma palavra que diga natureza, meio ambiente.

Qual é a palavra usada?

Por exemplo, nas línguas do sul é Ntumbuluku. É uma palavra que quer dizer várias coisas. Em primeiro lugar, quer dizer o antigamente, a origem do mundo. E ao mesmo tempo quer dizer sociedade, cultura, natureza. Porque essa visão do mundo não separa essas esferas do conhecimento. Então a atitude não pode ser conservacionista, de proteger a espécie. Tem que ser mais do que isso. Se não mudarem as grandes políticas, a maneira de fazer economia, que é muito predadora, não vamos salvar o que nós pensamos ser o meio ambiente. Seria mais um entretenimento, e não uma luta radical.

O senhor também já disse que a pobreza é um conceito relativo: em algumas línguas de Moçambique, sequer existe a palavra pobre. Pobreza não seria só a falta de bens, mas a solidão. Como o senhor enxerga os discursos sobre a pobreza?

Essa lição que a África pode dar é uma lição relativa. O que se está a dizer não é que não haja pobreza. Mas a forma de medir a pobreza não é pela falta de dinheiro só, é pela falta da rede familiar. Portanto, quando se chama chisiwana, que é a forma para designar um pobre, quer dizer que a pessoa começa a ser pobre quando perdeu os laços de familiaridade, é uma espécie de desamparo, solidão. E essa é uma maneira de medir a pobreza que pode ser aplicada também em outros sítios. Somos pobres porque nossa vida foi empobrecida em todos os sentidos. O quanto este mundo de hoje nos oferece de coisas que nos encantam, que nos criam esperança e crença? Esse empobrecimento foi o que nos ensinaram, de só ver por um critério econômico e financeiro. Mas, desse ponto de vista, mesmo ricos hoje são pobres. Porque eles próprios têm medo, não têm tanta esperança assim, vivem em função de algo que é imediato, instantâneo.

No livro E se Obama fosse Africano, o senhor escreve que nunca no nosso mundo teve tanta comunicação e nunca foi tão dramática nossa solidão. Que nunca houve tanta estrada e nunca nos visitamos tão pouco. Esse paradoxo tem solução? 

Eu acho que tem que ter. Eu tenho fé, porque eu tenho filhos, tenho netos, e eu reencontro essa aptência fundamental do menino de se alimentar de histórias. Essa pergunta que o menino faz quando adormece, que quer saber uma história, essa história não tem fim, só quando ele adormece... E parece-me que existe um limite... Estou dizendo isso, mas não sei se acredito no que estou a dizer. Acho que não há o limite para o mau gosto. Quando nós pensamos que a má qualidade da televisão ou de um órgão de informação chegou ao maus baixo, somos surpreendidos. Então essa invasão é muito forte. Acho que essa espécie de anulação da criatividade e do gosto de ser criativo... essa invasão hoje é total. Fica pouco espaço para quem quer fazer algo diferente. Mas eu creio que quem está se opondo a este mundo está muito centrado na luta política, só. E acho que é preciso lutar em outros campos. Acredito que essa mesma tentação de vivermos com Facebook, com redes sociais, cria uma espécie de contraponto. Essa comunicação não é feita só no vazamento do outro, acho que a gente se encontra também.

E o senhor usa as redes sociais? 

Eu não uso, não. Mas não é pelo preconceito. Eu resisto um pouco quando eu vou lá e perguntam: "fulano de tal quer ser seu amigo". Isso é um grande desrespeito por aquilo que pode ser a amizade. Amizade é uma outra coisa. Acho que não é inocente o uso da palavra amigo. Em toda nossa vida, produzimos quantos amigos, 10? Contam-se os amigos mesmo, nunca são muitos. E não precisam ser. Acho que há ali alguma coisa que eu não quero entrar. Mas não sou contra, não faço guerra contra isso.

O senhor já se declarou como um apaixonado do Brasil. Qual a sua visão sobre o Brasil hoje? 

Eu não sei se eu consigo ver o Brasil. Porque há tantos Brasis... tantas hipóteses de mudança. Mas o que me parece é que o Brasil é muito cativante. É um país que é fácil de ficar enamorado. E esse enamoramento é uma coisa que ajuda o Brasil, mas cria uma dificuldade posterior. Porque quem está enamorado não vê o outro, vê a construção que faz, não vê defeitos. E depois, estando aqui, a gente começa a perceber como é que algumas coisas que se tinha expectativa que funcionasse, não funcionam, como os serviços públicos em geral. O Brasil tem essa aparência de primeiro mundo, mas depois percebe-se que o modo de funcionar e a preparação que as pessoas têm para a função não é exatamente de primeiro mundo. Eu nem falo dos contrastes entre pobreza e riqueza, que é muito falado e muito chocante, mas falo do contraste entre a aparência que o Brasil tem e os outros mundos que vivem dentro do Brasil. Apesar disso, eu prefiro isso do que um país só de primeiro mundo. Acho que não conseguiria viver num país em que todo ele fosse de um único mundo.

domingo, 4 de maio de 2014

Respeitem meus cabelos, brancos! Um plano de aula para a diferença

Serviço:
Texto de autoria de Euzebio Carvalho

Introdução: apresentando o problema

A educação para as relações étnico-raciais passa, antes de tudo, pela relação com as características corporais que remetem à nossa origem cultural, à nossa vinculação étnica, enquanto grupo, enquanto povo. Por meio dessas características corporais somos identificados e nos identificamos. A cor de nossa pele, a estrutura do nosso cabelo, o conjunto das marcas fenotípicas que trazemos impresso no corpo que nos constitui enquanto grupo e como pessoas, indivíduos.

O cabelo é uma das marcas identitárias mais fortes que trazemos em nosso corpo. Por conta da forma de nosso cabelo somos rotulados. A aparência de nosso cabelo interfere na forma como os outros nos olham, tratam, recebem. Mas também como nos ignoram, nos maltratam. Olhares podem ser acusadores e reprovadores. É por isso que precisamos pensar um pouco sobre isso.

Nos ambientes escolares, essas situações são muito fortes. Estão sempre presentes. Todos nós temos a memória de situações de não aceitação das características de nossos corpos, pelos colegas da escola. É justamente nesse espaço e tempo da escola que devemos trabalhar para construir relações étnico-raciais saudáveis e positivas, livres de preconceitos e discriminações.

Algumas crianças sofrem por conta da forma como são tratadas. Esse sofrimento vai marcar sua subjetividade por muito tempo. A maioria das vezes, de forma dolorida e quase doentia. Por conta desses acontecimentos aprendemos a negar e a destruir muitas características que trazemos nos nossos corpos. 

Situações assim são provocadas pelos coleguinhas, mas também reforçadas pelos professores e professoras, pelos funcionários e pelos gestores da escola. São frequentes as situações em que a vítima de maus tratos são ignoradas. "Deixa isso pra lá", costumam dizer. "Fulano não teve a intenção..." defendem outros. Mas o sentimento ruim que foi plantado em nós continua a existir.

Frases como "cabelo de bombril" ou que temos "cabelo ruim" podem plantar em nós a vontade de destruir o nosso cabelo. Faz-nos sentir a vontade de ter um outro corpo; ser outra pessoa. Lentamente, somos "educados" a nos desgostar. A vontade de "não ser" destrói a nossa tranquilidade, o nosso bem estar no mundo. Passamos a alimentar o desejo de não ser como aparentamos ser, de não ter o que temos e que nos constituí. Sentimo-nos feios, pobres, gordos, desajeitados, deslocados, deficientes... diferentes. E percebemos que essa diferença provoca dor e sofrimento. 

O acúmulo de situações como essas, que se repetem constantemente, provoca apatia, falta de interesse pela escola, revolta, raiva, vergonha. Quantas mães não reclamam que seus filhos "não querem mais ir pra escola"?

No nosso interior, somos forçados a acreditar que é nossa responsabilidade ser diferente. Como se a diferença fosse nossa culpa; como se fôssemos responsáveis pela diferença que trazemos em nosso corpo. Na maioria das vezes, para não sermos mais tratados de forma ruim, começamos a querer mudar. Para não passar por uma situação dolorida novamente, aprendemos a negociar. Negamos o que somos: "eu não sou negro". Mudamos o que temos: "quero alisar meu cabelo". Para ser aceito dentro dos padrões (tidos como) "normais", apagamo-nos, negamo-nos. Construímos uma auto-imagem a partir da negação. Do que eu não sou, do que eu não quero ser. Ficamos a um passo de doenças psicológicas como a esquizofrenia, por exemplo. Tornamo-nos pessoas doentes mentalmente. É como se ficássemos sempre a espera de alguém olhar para nós e nos maltratar novamente. E todo mundo se torna um possível malfeitor.


Os objetos da aula e o respeito à diferença

O que fazer, então? Precisamos aprender a conviver (e não a "tolerar") as diferenças. Desde criancinhas. Ninguém precisa parecer comigo e eu não preciso parecer com ninguém para ser legal, bom, bonito, inteligente, correto, verdadeiro etc, etc. Podemos ser isso tudo, dentro e a partir da nossa diferença.

Para pensar um pouco sobre a relação de nosso cabelo com a identidade que construímos, com os sentimentos que alimentamos, com o bem estar bem, com a autoestima, trazemos uma proposta de atividade para ser realizada na escola.

A partir de uma ocorrência na escola, em que uma aluna se sentiu ofendida em sua diferença, o grupo do PIBID planejou uma série de intervenções. Em uma aula, apresentaremos a música "respeitem meus cabelos, brancos!" do cantor paraibano Chico César. Já conhece a música? E o cantor? Mesmo que sim, convidamos a clicar nos links e (re)ler/ouvir um pouco mais. Essa música é a penúltima faixa do quinto álbum do artista. 

O disco leva o mesmo título da faixa ("Respeitem meus cabelos, brancos") e foi , lançado em 2002. Segue a letra, retirada de seu sítio oficial:

Respeitem meus cabelos, brancos / 
chegou a hora de falar / 
vamos ser francos / 
pois quando um preto fala o branco cala ou deixa a sala com veludo nos tamancos / 
cabelo veio da África / 
junto com meus santos / 
cabelo veio da áfrica / 
junto com meus santos / 

benguelas, zulus, gêges, rebolos, bundos, bantos / 
batuques, toques, mandingas, danças, tranças, cantos / 
respeitem meus cabelos, brancos / 
respeitem meus cabelos, brancos / 
 
se eu quero pixaim, / 
deixa / 
se eu quero enrolar, / 
deixa / 
se eu quero colorir, / 
deixa /
se eu quero assanhar, / 
deixa, deixa, deixa a madeixa balançar

se eu quero pixaim, / 
deixa / 
se eu quero enrolar, / 
deixa / 
se eu quero colorir, / 
deixa /
se eu quero assanhar, / 
deixa, deixa, deixa a madeixa balançar
[Repete]
Fui claro?

Chico César assim se manifesta sobre a música:

Quando digo "respeitem meus cabelos, brancos" não falo só de mim nem quero dizer só isso. Debaixo dos cabelos, o homem como metáfora. A raça. A geração. A pessoa e suas idéias. A luta para manter-se de pé e mantê-las, as idéias, flecheiras. É como se alguém dissesse "respeitem minha particularidade". É o que eu digo, como artista brasileiro nordestino descendente de negros e índios. E brancos. Ou ainda no plural: minhas particularidades mutantes. Fala-se em tolerância. Pois não é disso que se trata. Trata-se de respeito (encarte do cd). 

 

Metodologia de ensino

A nossa proposta é a apresentação dessa música nas aulas de história, nas turmas do ensino fundamental (6º ao 9º ano). A metodologia de ensino a ser utilizada é a seguinte: 1º apresentar o áudio da música para todos ouvirem (sem mostrar a letra, ainda) e depois discutir a letra.

No primeiro momento, após a audição da música, é para os alunos:
  1. Identificar os instrumentos musicais utilizados;
  2. Identificar o gênero/estilo da música;
  3. Socializar as sensações que a música provocou em seu corpo (alegria, felicidade, diversão?)
Somente depois de feito isso, entregaremos a letra. No segundo momento, então, ouviremos novamente a música, acompanhando a letra impressa no papel. Depois, analisaremos o discurso construído pelos versos do autor, por meio das seguintes perguntas:
  1. Qual o tema da música?
  2. Quais versos remetem à História e Cultura Afro-Brasileira?
  3. Identidade, diversidade e diferença étnica: o que é e como ela aparece na letra?
  4. Consciência racial: o que é e como ela aparece na letra?
Depois de pensarmos sobre isso, é preciso finalizar a atividade fazendo o "fechamento" da análise. Para isso, propomos a seguinte pergunta orientadora:
  1. Quais os sentidos, argumentos, teses, ideias e pensamentos são construídos/defendidos por/nesse discurso?
As respostas dos estudantes podem ser orais, afinal o que se espera é o debate e a consequente reflexão sobre o problema apresentado. Mas, também podemos pedir as respostas por escrito, no caderno; podemos pedir desenhos para serem expostos etc.

Paralelo a essa atividade que acontece dentro da sala, na escola será montado um mural com várias fotografias coloridas e impressas de cabelos afro-brasileiros. O objetivo é marcar a diferença e as várias possibilidades de uso do cabelo, desde os penteados mais simples até as produções mais complexas.

Essas imagens serão pontuadas por "frases de efeito" escritas em pequenos cartazes que positivem e aprovem os cabelos afro-brasileiros, como por exemplo: "em terra de chapinha, quem tem black é rainha"; "meu cabelo não é ruim, ruim é seu racismo", "meu cabelo vem da África, junto com meus santos" e outras. Cada integrante do projeto ficou de levar suas frases de efeito.

Posteriormente, nos dias consecutivos, serão organizadas oficinas de penteados afro. Ao final, depois de uma palestra com a profa. Lídia Cruz, haverá um desfile para exibir os penteados realizados.

Material de apoio

Para o planejamento e preparação da aula, sugerimos a leitura dos textos:

O texto escolar: "Radiola PW: respeitem meus cabelos, brancos" do Professor Web

O artigo acadêmico: "Respeitem meus cabelos, brancos: música, política e identidade negra", de Felipe Trotta e Kywza, publicado na Revista Famecos (Qualis A2), de 2012.

O capítulo "Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural", de Nilma Lino Gomes, publicado no livro Educação como exercício de diversidade, de 2005 (volume 7, da coleção Educação para todos)

Além disso, indicamos também algumas montagens feitas a partir da música e disponíveis no youtube


terça-feira, 29 de abril de 2014

Racismo no futebol

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TEXTO 1
 
"Porque Comparar Negros a Macacos Não Deve Ser Motivo de Piada", texto de autoria de Marcelo Montes Penha, originalmente publicado no blog: cúlti & pópi: Porque Comparar Negros a Macacos Não Deve Ser Motivo de Piada



Ota Benga, Zoológico do Bronx, Nova York em 1906

A foto acima é do pigmeu Ota Benga que ficou em exibição junto a macacos no Zoológico do Bronx, Nova York, em 1906. Ota foi levado do Congo para Nova York e sua exibição em um zoológico americano serviu como um exemplo do quê os cientistas daquela época proclamaram ser uma raça evolucionária inferior ao ser humano. A história do jovem Ota serviu para inflamar as crenças sobre a supremacia ariana defendida por Adolf Hitler. Sua história é contada no documentário “The Human Zoo” (O Zoológico Humano).

 

Comparar os negros a macacos não é nada maneiro. 

 

Assim como aquela velha e infeliz “piada” que pergunta, qual a diferença entre uma lata cheia de merda e um negro?, as piadas que comparam negros a macacos são racistas em sua essência; não são inovadoras, originais ou mesmo inteligentes pois humilham, causam constrangimento, tristeza e mal-humor em várias pessoas, pricipalmente aquelas que sabem o real significado de ser não-branco no Brasil. E a causa desse constrangimento tem uma razão histórica, como veremos.

Hoje vemos no Brasil o comportamento racista contra os negros surgindo de forma não camuflada e assim abalando as bem fracas estruturas do mito nacional da democracia racial. E nestes últimos dias o Brasil testemunhou casos onde negros sofreram humilhação pública, ofensas que utilizaram a figura do macaco dentro de um espaço já tradicionalmente reconhecido como popular, racialmente democrático e diverso: a arena de futebol.

O árbitro de futebol Márcio Chagas da Silva foi mais um alvo de racismo no último dia 5, durante a partida entre Esportivo e Veranópolis, no Estádio Montanha dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, quando ele, na entrada do jogo, foi chamado pela torcida de “macaco”, “imundo”, e “escória”. E mais tarde o árbitro encontrou seu carro amassado e sujo com bananas, inclusive no cano do escapamento, assim reportado pelo Portal Terra.

Um dia depois mais um caso ocorreu, desta vez em São Paulo, como noticiou o jornal Estado de São Paulo:

“Após ser chamado de ‘macaco’ no Estádio Romildo Ferreira, em Mogi Mirim, o volante Arouca repudiou as ofensas racistas que sofreu de torcedores na vitória do Santos por 5 a 2 contra o time da casa. Em nota, o atleta, que fez o terceiro gol da equipe praiana no jogo, classificou como ‘lamentável e inaceitável’ os xingamentos ouvidos na noite da última quinta-feira, em partida válida pelo Campeonato Paulista.”

Esse tipo de ofensa vem ocorrendo em todo o mundo, e aumentou bastante desde que Barak Obama se tornou presidente dos Estados Unidos, tendo ele sido alvo de várias caricaturas humilhantes retratando-o como macaco, e que tiveram o intuito único e absoluto de ofender o primeiro negro a ocupar o cargo de presidente daquele país. Estádios de futebol na Europa também se tornaram palco deste tipo de insulto regularmente.

Entretanto, muita gente não compreende a magnitude e profundidade da utilização da figura do macaco como insulto aos negros, mesmo quando a utilização da figura daquele animal tem como objetivo fazer alguém rir.


Já algum tempo atrás, um humorista fez uma piada onde comparou o King Kong a jogadores de futebol. Entidades e grupos afro-brasileiros repudiaram tal piada e através de um twitter o humorista pergunta porque não se pode chamar um negro de macaco.

Esta postagem não é uma tentativa de explicação do porque não se pode chamar um negro de macaco, mas sim uma explicação do porque não se deve fazer esta comparação, e porque e como a mesma fere profundamente algumas pessoas.


Bem, tudo tem uma raíz histórica.

James Bradley, professor de História da Medicina/Ciência da Vida da University de Melbourne, na Austrália, em seu texto “The ape insult: a short history of a racist idea” (O Macaco Como Insulto: Uma curta história de uma idéia racista), publicado no site The Conversation: Academic rigour, journalistic flair, detalha o uso ofensivo da comparação de descendentes de africanos com o animal macaco. Ele diz que para se “entender a força e o objetivo do uso do macaco como insulto, a gente precisa de uma dose de história”.

Para isso ele retorna ao século 18, momento no qual as teorias da evolução já estavam sendo propostas, e que as teorias de Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829) o tornaram o ancestral das teorias de Darwin. Bradley diz que para Lamarck, a evolução não se deu através da seleção natural no espírito darwiano, mas sim através de uma força vital que levou organismos a se tornarem mais complexos, funcionando em combinação com a influência do ambiente. Segundo Bradley, “nesta visão, os seres humanos não compartilhariam um ancestral em comum com os macacos”, eles seriam na verdade, “os diretos descendentes dos macacos”, e por consequência, os africanos “se tornaram o elo entre os macacos e os europeus”.

A teoria de Lamarck junto às várias outras teorias similares da época, foram vitais para a elaboração do racismo científico—também conhecido como pseudo-ciência, ou falsa ciência. Bradley novamente nos explica que ao fazer parecer que os “não-europeus seriam mais macacos do quê humanos, essas diferentes teorias foram usadas para justificar a escravidão nas Américas e o colonialismo no resto do mundo”. O autor acredita que todas aquelas diferentes teorias científicas e religiosas operaram na mesma direção”, ou seja, “reinforçar a direito europeu de controlar grande parte do mundo”. E esta foi a maneira que os europeus se diferenciaram não só biologicamente mas também “culturalmente”, mantendo sua superioridade sobre os outros povos.

Bradley por fim faz uma importante proposição: “Invocar a imagem do macaco é acessar o poder que levou a desapropriação das populações não-européias e outras heranças do colonialismo”. E interessantemente ao se referir ao contexto australiano, mas que tem uma repercursão também em várias outras partes do mundo, o autor termina seu texto dizendo:

“Claramente, o sistema educacional não faz o suficiente para nos educar sobre a ciência ou a história do homem. Porque se o fizesse, nós veríamos o desaparecimento do uso do macaco como insulto”.


A razão pela qual não se deve comparar negros a macacos, é por esta ser uma simples repetição de uma parte perversa da nossa história, e que por ainda ser o Brasil uma sociedade de imensas desigualdades sociais, essa comparação se torna altamente perigosa. Assim, mesmo enquanto piada, a comparação não é inovadora nem mesmo original ou inteligente, pois usa as idéias obsoletas criadas no século 18 como base para o humor. Estas piadas reinforçam o racismo já estabelecido na nossa sociedade e só servem a um único objetivo: aumentar a aura de falsa superioridade biológica e cultural do branco, aumentando consequentemente, as desigualdades entre a população.

A comparação do negro ao macaco também evoca a crença escavocrata de que os escravos africanos, por serem equivalentes aos animais, não tinham alma.


A equação negro = macaco poderia não ser ofensiva caso esta não tivesse feito parte de uma estratégia engenhosamente construída para legitimar o controle e o domínio sistemático sobre a população africana que durou 4 séculos. Esta equação retirou o caráter humano da população africana e de seus descendentes tranformando-os em seres inferiores. Esta equação não somente justificou o trabalho forçado e não remunerado nas grandes lavouras, mas também dividiu milhões de famílias e transformou milhões de seres humanos em mercadoria que com o respaldo social, legal e científico para a sua inferioridade podiam ser sitematicamente humilhados, torturados, estuprados e assassinados à mercê do humor de seus donos. Comparar negro a macaco é, queira ou não, reviver e venerar um dos mais horríveis e longos episódios da história da humanidade.

Ainda, fica claro que fazer piada sobre um grupo social historicamente fragilizado é fácil, pois quem o fizer receberá o apoio de uma parte da sociedade que tem cravado em seu imaginário coletivo a crença de que os negros gostam de ser humilhados e ofendidos, e que podem ser humilhados e ofendidos por serem inferiores. Todavia, fazer alguém rir sem usar a ofensa, por ser difícil, ainda será uma tarefa a ser realizada somente pelos portadores de real talento humorístico.

 

Piada, humor e comédia em geral, servem para liberar as mais variadas emoções escondidas no ser humano, geralmente criando um senso de bem estar, mas hoje temos um monstro à solta nos estádios de futebol, nos salões de manicure, por aí, nas ruas. Isso nos leva a crer que parte do humor que ataca gratuitamente a ideologia do “politicamente correto”, o faz tão somente como forma de justificar limitações artísticas.


Talvez seja esta uma outra razão pela qual não se deva comparar o negro ao macaco: as pessoas podem acreditar, já que uma população que muito carece de um sistema educacional de qualidade (desde a classe social mais alta até a classe baixa), tende a aprender, acreditar, imitar, tende a se educar através das verdades criadas pelas celebridades do mundo do entretenimento.


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TEXTO 2

"Macaco, o tótem do Brasil", texto de autoria de Bernardo Buarque de Hollanda, publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo

O recente recrudescimento de episódios de racismo no futebol, agora manifestados em clubes da Europa que constituem a vitrine futebolística do mundo, como as equipes multimilionárias da Espanha, parece corresponder a uma reação, consciente ou inconsciente, de segmentos de torcedores extremistas e chauvinistas frente ao ciclo de fortalecimento das relações capitalistas no esporte.
Ligados aos grandes clubes e aos campeonatos europeus de maior visibilidade internacional, esses torcedores manifestam sua hostilidade refratária tendo como alvo principal jogadores de origem negra, mestiça ou estrangeira, oriundos em sua grande maioria da América do Sul, da África e das regiões periféricas que historicamente constituíram as colônias fornecedoras de matéria-prima, mão de obra e mercadorias baratas para a Europa.
A dinâmica contemporânea do capitalismo e os meganegócios do futebol empresarial põem em tela os grandes temas da atualidade. Alguns deles ocupam a agenda política da Comunidade Europeia, tais como a redefinição de suas fronteiras internas, a corrente das migrações populacionais em seu interior e a integração dos grupos étnicos que a ela afluem dos quatro cantos do globo.
Vistas como entraves à plena realização desses ideais que buscam refletir um sistema econômico perfeito, regido por um fluxo de trocas que somente conheceria as supostas leis do mercado, as pugnas racistas, xenofóbicas e neofascistas de determinados grupúsculos de torcedores simbolizariam o polo provinciano, regionalista e tradicionalista de resistência às forças integradoras, modernizadoras e cosmopolitas  do capitalismo no futebol.

Conforme explicita Hobsbawm em um de seus últimos livros publicados em vida, Globalização, Democracia e Terrorismo (2007), esse esporte padeceria de uma espécie de esquizofrenia constitutiva, que se intensifica em princípios do século 21. Para o historiador britânico, tal prática se encontra cindida entre o elemento nacional, derradeiro refúgio das paixões do mundo antigo, e o elemento transnacional, a mais nova face do capitalismo globalizado.
Esse diagnóstico mais geral vem à tona num momento em que tais casos parecem se suceder com frequência, tendo desta vez os jogadores brasileiros como foco recorrente, a exemplo do ocorrido com Daniel Alves e Neymar, no último domingo. Como se sabe, não são situações isoladas. Para recapitular, mencionem-se os urros simiescos da torcida de um clube peruano, país com expressivos contingentes negros em sua população, dirigidos contra o volante Tinga, do Cruzeiro, durante a primeira rodada da Copa Libertadores da América deste ano.
Lembrem-se também os insultos de preconceito lançados contra o atleta Arouca, do Santos, após a partida válida pelo Campeonato Paulista de 2014, no interior de São Paulo. Quase simultaneamente, um árbitro de origem negra teve seu carro depredado, com pencas de banana deixadas sobre o capô do veículo, à saída de uma partida do campeonato gaúcho.
É evidente que não estamos diante de uma novidade. Os incidentes escandalosos poderiam ser encontrados igualmente em exemplos do passado, de modo a se buscar um continuum que se prolongaria até o presente. Cinco anos atrás, em 2009, o jogador Grafite também fora ofendido por um atleta argentino – “negro e macaco” eram as duas categorias acusatórias acionadas por Desábato, como lembra a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz – em fato que suscitou enorme atenção da opinião pública à época.
Na América do Sul, tais representações coletivas fazem-se tradicionalmente presentes em confrontos futebolísticos do Brasil contra os países vizinhos. Durante os anos 1920, os brasileiros jogavam os campeonatos sul-americanos na Argentina e no Chile, ocasião em que eram chamados de macaquitos pelos adversários. A referência pejorativa, por sua vez, remontava à Guerra do Paraguai, quando soldados negros, ainda escravos, eram alforriados ao regresso da luta.
Tal fato chegou a indignar o escritor mulato Lima Barreto, conforme relata José Miguel Wisnik, em seu extraordinário livro Veneno Remédio. O autor de Policarpo Quaresma, notório antagonista da prática do futebol no Brasil, revoltou-se com o xingamento ofensivo dos argentinos e chilenos. Para tanto, procurou responder à altura e transformou o estigma em elogio, a vergonha em orgulho, o suposto defeito em qualidade. O procedimento, aliás, é recorrente entre torcidas de futebol, que valoram positivamente os símbolos do porco, do gambá, do urubu e da favela, convertendo o negativo em positivo, na autoidentificação com o seu clube do coração.
No artigo Macaquitos, publicado na revista Careta a 23 de outubro de 1920, Lima Barreto propôs a adoção do macaco como o verdadeiro totem nacional. Da mesma maneira que o galo para a França, o urso para a Rússia, a águia para a Alemanha, o leão para a Bélgica e o leopardo para a Inglaterra, o macaco passaria a ser a identificação totêmica do brasileiro, haja vista se tratar de um animal inteligente, frugívoro – adicto, em especial, da banana – e parente próximo do homem, segundo, em tom irônico, advertia Barreto.
O modo pelo qual Lima Barreto reagiu à ofensa da imprensa argentina contra os atletas da seleção brasileira no início dos campeonatos sul-americanos de quase cem anos atrás nos remete ao mais recente ato de discriminação no futebol. O escândalo midiático ocorreu no dia 27 de abril, quando um torcedor do clube espanhol Villareal arremessou uma banana na direção do jogador brasileiro Daniel Alves, que atua no Barcelona como lateral direito.
O ato irônico do jogador, ao pegar a banana atirada no gramado, descascá-la, comê-la em frente ao público e escarnecer do torcedor prorrompeu no Brasil em uma cadeia de reações prós e contra sua atitude. A repercussão não tardou a agitar as redes sociais, com apropriações vindas a reboque, quer seja a campanha publicitária idealizada pelos agentes de Neymar, quer seja a grife lançada por um apresentador de tevê global.
Em contrapartida à provável espontaneidade de Daniel no gramado, o que sucedeu na sua esteira parece ter um caráter menos espontâneo, condicionado pelas estratégias do marketing virtual e da administração da imagem de personagens públicas em torno do “politicamente correto”.
Nesse caso, no entanto, os marqueteiros invadem um terreno minado e vão de encontro a um dos debates que é também uma das feridas mais caras ao brasileiro. Ela diz respeito à integração do negro numa sociedade de classes, para remeter à expressão de Florestan Fernandes, e à mentalidade senhorial de que falava Joaquim Nabuco, que não terminava com o fim da escravidão.
Enquanto jogadores, celebridades e personalidades da mídia se solidarizam com a publicidade lançada pelo astro brasileiro da equipe catalã, militantes dos movimentos negros questionam a adoção espalhafatosa da banana e do macaco como símbolos antirracistas.
Isso chama a atenção porque, curiosamente, as manifestações contra a discriminação racial são encampadas por personagens sem nenhum vínculo histórico de luta contra o racismo no Brasil. Os repentinos entusiastas da igualdade racial parecem surfar na maré montante do que gera notícia rápida e rasteira, ainda que seus fins pareçam ser nobres e altruísticos: a abolição universal de todos os tipos de preconceito.
Polêmicas à parte, à esquerda e à direita, merece ser apontada uma diferença concreta de tratamento, capaz de exemplificar o modus operandi do assim chamado “racismo à brasileira”. Ele pode ser observado na maneira diferenciada como o caso Daniel Alves foi tratado no Brasil e na Espanha.
Se o repúdio à ofensa ocorreu tanto lá quanto cá, é curioso que a punição dada ao torcedor do Villarreal pelo próprio clube tenha sido implacável.
No dia seguinte ao jogo, o arremessador da banana foi identificado. Logo em seguida, a diretoria do clube espanhol anunciou o cancelamento de sua carteira de sócio, optou por suspender seu carnê de entrada no estádio El Madrigal e proclamou o banimento em definitivo do jovem torcedor. Ele nunca mais poderá frequentar os jogos do time em sua cidade.
Além da penalização cabal do clube, o torcedor foi também preso de imediato pela polícia local, sendo instado a depor e responder por desacato ao código penal do país. Já no Brasil, a campanha pedagógico-comercial roubou a cena, por assim dizer. Ela adquiriu poses festivas na suposta conscientização contra a discriminação. Sendo assim, não houve mobilização dos líderes da campanha para atuar em cima de situações concretas.
Embora aqui, como na Espanha, haja uma legislação que criminaliza a prática de racismo, ninguém se dispôs a ir à busca de punições exemplares para os racistas que frequentam os estádios brasileiros.
Apesar de toda a mobilização da imprensa no início do ano, nenhum torcedor que ofendeu o jogador santista Arouca foi afinal localizado. As ações da polícia e dos dirigentes dos clubes responsáveis foram tímidas e caíram no esquecimento. Da mesma forma, os agressores do árbitro Mário Chagas, que depredaram seu carro e o hostilizaram, tampouco foram punidos e o juiz resolveu encerrar prematuramente sua carreira.
Nesse cenário de impunidade, as boas intenções expressas pelos que aparecem na moda da mídia convivem com ações pouco eficazes quando se trata de aplicar a lei e cobrar das autoridades uma mudança de postura, com atitudes e respostas enérgicas. Ao mesmo tempo indignados e tolerantes com o racismo, os brasileiros cultivam a sensação de que ninguém é preconceituoso em seu país. Continuam assim, mesmo sem o querer, a conviver ambiguamente com suas práticas, dentro e fora de campo.

 

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TEXTO3

"Por que os internautas rejeitaram a campanha das bananas", texto de autoria de Marcelo Träsel, jornalista e professor de comunicação digital na Famecos/PUCRS, publicado originalmente no jornal Zero Hora

Nas redes sociais, acontece muito de as pessoas atravessarem a rua para escorregar na casca de banana que está do outro lado. Foi o caso de Luciano Huck, quando decidiu dar sua contribuição para o repúdio ao ato racista sofrido pelo brasileiro Daniel Alves na Espanha – uma banana foi lançada no campo e o jogador de futebol, que é negro, a Nas redes sociais, acontece muito de as pessoas atravessarem a rua para escorregar na casca de banana que está do outro lado. Foi o caso de Luciano Huck, quando decidiu dar sua contribuição para o repúdio ao ato racista sofrido pelo brasileiro Daniel Alves na Espanha – uma banana foi lançada no campo e o jogador de futebol, que é negro, a comeu. Todavia, o apresentador da Globo resolveu atravessar a rua proverbial e lançar uma camiseta estampada com a palavra-de-ordem e uma releitura da banana gravada por Andy Warhol para uma capa de disco do Velvet Underground. A camiseta custava R$ 70, e Huck passou, assim, a fazer companhia à agência Loducca como alvo de acusações de oportunismo nas redes sociais da Internet. Huck passou até mesmo a sofrer ofensas ligando sua suposta ganância ao fato de ser judeu. (Faça aqui uma pausa na leitura para contemplar o ridículo do acontecido: Huck sofreu discriminação religiosa por parte de pessoas que, em tese, estavam defendendo a autenticidade da luta contra o racismo.) No fim das contas, o necessário e saudável debate sobre o racismo que permeia o futebol e todos os âmbitos da sociedade brasileira deu lugar a um bate-boca pedestre sobre a colonização das redes sociais na Internet pelo capital. Em menos de 12 horas, a campanha #somostodosmacacos gorou, devido à percepção de que seu enunciado não tinha origem na essência de Neymar como ser político, mas numa estratégia calculada por alquimistas da comunicação. Por outro lado, muitos participantes do movimento negro criticaram o slogan por reforçar estereótipos – até mesmo Daniel Alves, estopim da campanha, reprovou a escolha de palavras. Uma das principais ferramentas de linguagem nas redes sociais da Internet são os memes, isto é, uma ideia, estilo ou ação que se dissemina no ciberespaço como um gene se espalha entre uma população no ambiente natural. Um meme pode ser uma frase, uma imagem, um hyperlink ou uma palavra-chave. Quando um meme se torna especialmente virulento, ou seja, ganha a capacidade de se propagar como uma epidemia, ele é chamado de “viral”. Tornar-se um viral é o principal objetivo, declarado ou não, das campanhas publicitárias em redes sociais. Mas a revelação de um viral como peça publicitária neutraliza sua capacidade de reprodução. Por isso, eles normalmente são assinados por seus criadores somente após atingirem o ápice da meia-vida. A reação negativa ao meme #somostodosmacacos parece derivar do fato de ele ter sido interpretado, inicialmente, como um viral espontâneo. Ao descobrirem que se tratava de uma campanha publicitária, calculada, alguns participantes das redes sociais podem ter sentido algo como aquele gosto amargo deixado por edulcorantes artificiais na boca após terminar o cafezinho. Nós queremos fazer campanha contra o racismo, mas queremos fazê-lo de forma espontânea, sem a sensação de estarmos sendo manipulados por forças ocultas. Esse dado jogou todas as manifestações de celebridades a respeito do racismo sofrido por Daniel Alves no campo do oportunismo, fossem elas oportunistas ou autênticas. E daí Huck decidiu dar o passo além, atravessar a rua e materializar o meme numa camiseta. A atitude foi interpretada como uma prova incontestável do oportunismo das ações englobadas pela hashtag #somostodosmacacos, e o debate público se desviou do racismo para a mercantilização da Internet. Do ponto de vista dos efeitos sociais, não há muita diferença entre uma mensagem ser originada numa agência de publicidade, na sede duma ONG ou no computador do Zezinho. Se a mensagem estiver alinhada aos ideais democráticos e fomentar o debate na esfera pública, ótimo! Qualquer passo adiante é bem-vindo em questões como o racismo. Mas do ponto de vista das estruturas sociais, todavia, a substituição da autenticidade do ser político individual pelo calculismo do aparato de relações públicas pode vir a deteriorar as próprias formas de interação das quais a esfera pública depende. Neste sentido, a constante tentativa de agências de publicidade de criarem virais pode gerar uma resposta excessiva dos sistemas de defesa cognitivos dos cidadãos, que podem desenvolver um quadro de alergia às mensagens circulantes na Internet. A constante frustração das expectativas pela descoberta de que um meme é uma tentativa comercialmente orquestrada de dirigir a esfera pública pode levar muitos cidadãos a desistirem de participar de qualquer debate.